quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Rondo tentará impedir que os Celtics implodam
A ideia atingiu Rajon Rondo como um passe mal feito. Ele já havia sofrido acusações no passado mas, por saber que eram falsas, nem havia tentado negá-las ou se defender. Afinal, se os jornalistas mal conseguiam pronunciar seu nome, RÁ-jon, como esperar que acertassem qualquer outra coisa?
Mas os sentimentos dos colegas de equipe com relação a ele eram coisa diferente. As primeiras memórias esportivas de Rondo envolvem jogos improvisados de basquete em East Louisville, Kentucky, e a primeira motivação que teve era a decepção dos demais jogadores, adolescentes, que se viam forçados a escolher Rajon, então com seis anos, se quisessem ter seu irmão mais velho, William, no time. Mas isso tudo havia ficado no passado, ou ao menos era isso que Rondo acreditava. No entanto, em junho, quando ele chegou ao escritório de Doc Rivers, o técnico dos Celtics, para uma conversa, depois do fracasso da equipe em defender o título conquistado no ano anterior, Rondo se espantou ao ouvir do técnico a seguinte pergunta: "você acha que seus colegas de equipe gostam de jogar com você?"
Rondo não conseguia imaginar outra resposta que não "sim". Talvez seus colegas não gostassem dele como pessoa, já que se trata de uma personalidade estóica em meio a um grupo extrovertido, e de um garoto disposto a questionar quase tudo. Mas não gostar de jogar com ele? Rondo não estava escalado como titular de um time campeão pela segunda temporada consecutiva, e seu jogo, concentrado mais em servir os colegas com assistências do que em criar arremessos para ele mesmo, não era até motivo de críticas por ele finalizar pouco? E, na temporada passada, ele não havia conseguido vencer o duelo contra o melhor novato da temporada, Derrick Rose, do Chicago Bulls, em uma tensa série de playoff que chegou a sete jogos, e conquistado lugar entre os 10 melhores jogadores de defesa da NBA?
"Eu achei que gostavam", foi tudo que Rondo conseguiu responder.
Rivers não levou o assunto adiante. Sabia que a pergunta bastaria para levar Rondo a refletir. Porque pensar é o que ele gosta de fazer. É o segredo de seu sucesso, e talvez o motivo para a insinuação de Rivers. Ninguém é mais crítico com relação a Rondo do que o próprio Rondo. E quando o jovem armador começou a avaliar a temporada passada, ele se concentrou em alguns olhares de desaprovação, em alguns murmúrios insatisfeitos. Bastou isso para que retornassem os fantasmas do playoff. Rondo havia atribuído o resultado desfavorável da temporada à complacência de uma equipe que acabara de conquistar um título, ou a uma capitulação causada pela ausência de Kevin Garnett devido a uma lesão no joelho. Jamais havia imaginado que alguém viesse a vê-lo como problema. "Eu senti", disse, "como se alguém tivesse me apunhalado pelas costas".
Boatos sobre possíveis trocas, entre as temporadas, mencionavam que ele seria exilado para Memphis, no Tennessee, o que agravou sua preocupação. E mesmo que negasse os rumores, o diretor de basquete do time. Danny Ainge, deixou escapar em entrevista a uma rádio local que Rondo "precisava crescer". Depois, o Celtics iniciou sua pré-temporada sem oferecer a Rondo uma prorrogação mais longa de contrato, o que o levou a refletir sobre seu valor de mercado no ano que vem, quando uma cláusula em seu contrato permitirá que seja negociado.
Mas o engraçado é que, embora o valor de Rondo para o time pareça estar sendo subestimado, a expectativa é de que ele faça cada vez mais pela equipe. Antes da temporada passada, os céticos não conseguiam ver de que maneira o jovem armador, com apenas dois anos de experiência, seria capaz de manter satisfeitos os seus três colegas de equipe que já têm lugar garantido na Galeria da Fama do basquete. Agora, com a chegada de reforços também conhecidos pelo temperamento difícil ¿Rasheed Wallace e Marquis Daniel-, será preciso integrar os novos integrantes, bem como facilitar a volta de Garnett, recuperado de sua lesão. Seria um processo complicado mesmo que ele não tivesse de se preocupar em determinar quais de seus colegas o apoiam e quais deles prefeririam vê-lo fora do time. Perguntado a respeito, Rondo enrijece os dentes e a resposta surge depois de uma pausa: "não preciso ser o melhor amigo de todo mundo para conquistar um campeonato".
A trajetória de Rondo, em tese, é como a de um filme independente que se torna um grande sucesso de bilheteria. Selecionado em 21° lugar na temporada de 2006, ele pouco jogou em sua temporada de estreia, mas foi promovido ao time titular no ano seguinte e desafiou as dúvidas da torcida e da imprensa durante todo o campeonato, conduzindo a equipe ao seu 17° título na história da NBA. Na semana passada, ele acertou mais de 50% de seus arremessos e registrou cinco partidas com mais de 10 pontos, 10 assistências e 10 rebotes, entre as quais três durante os playoffs. A Dunkin¿ Donuts, uma cadeia de restaurantes muito bem representada na área de Boston, optou por Rondo, e não Garnett, Paul Pierce ou Ray Allen, como garoto-propaganda. O mesmo vale para a Red Bull. Seus fãs no Facebook ¿que beiram os 60 mil- representam total quase duas vezes maior que o Pierce, considerado o melhor jogador das finais de 2008 e, como Rondo, um atleta que até agora só defendeu os Celtics.
Mas embora ele seja um sucesso com aqueles que o observam de longe, de perto Rondo enfrenta dificuldades para estabelecer conexões. Em Kentucky, o boato era o de que ele não se sentia bem com o sistema de controle de bola estabelecido pelo técnico Tubby Smith; quando ele se profissionalizou, depois de seu segundo ano de universidade, a saída foi aprovada pelo técnico. Nas férias deste ano, quando ele preferiu não treinar com a seleção de basquete dos Estados Unidos, as pessoas disseram que isso havia acontecido porque ele estava ofendido por ter sido convidado tardiamente. (Rondo diz que havia assumido o compromisso de servir como padrinho no casamento de seu melhor amigo e colega de time, Kendrick Perkins.) E só agora ele decidiu prometer que não mais se aqueceria com os tênis desamarrados, alegando não estar ciente de que os técnicos viam essa atitude como sinal de desrespeito. Quaisquer que sejam as verdades sobre tudo isso, o inconformismo de Rondo pode ser interpretado como arrogância, como desinteresse ou como ambas as coisas. "Ele permite que as pessoas interpretem como preferirem", diz o irmão, William. "Ele sorri, ou acena, mas prefere ficar quieto".
Isso não era problema para Rivers, no dia em que resolveu ter uma conversa com o seu armador principal. "Eu não marquei uma reunião com ele para conversar", diz o técnico. "Mas era preciso que ele fosse informado de algumas coisas". Coisas como o seu atraso para a primeira partida contra o Orlando Magic, na semifinal da conferência leste, sua postura negligente e sua perda de concentração, suas reclamações em hora errada -ou falta de reclamações quando deveria fazê-lo. "Não se trata de questões que sejam específicas quanto a Rondo, mas sim de coisas que afetam todos os jovens jogadores em busca de um contrato e de acordos milionários de publicidade", disse Rivers. "O que ele não pode esquecer é que o basquete vem em primeiro lugar".
Mas se essa era a preocupação principal, não parece haver motivo para que persista: nas férias, Rondo fez três visitas ao Laboratório de Arremessos de Mark Price, perto de Atlanta, e em alguns dias passou por sessões duplas a fim de remediar o único ponto fraco de seu arsenal, os jumpers. Como bonificação, o desdém pelo treinamento com pesos ¿ele temia que ganhar musculatura excessiva o fizesse perder velocidade- terminou abandonado depois que ele teve de enfrentar a marcação do musculoso Dwight Howard na série contra o Magic. Ele também prometeu que deixaria de cometer faltas tolas em tentativas de roubo de bola por trás. O Celtics certamente teria gostado de que ele corrigisse essas deficiências já desde o primeiro dia em que chegou à cidade. "Quando alguém diz que dois mais dois são quatro, ele quer saber o motivo", diz William, que vive com Rajon. "Na quadra é a mesma coisa. Ele diz que só porque o time faz uma jogada de determinada maneira e ela funciona, não quer dizer que não seja possível realizá-la de maneira diferente e obter o mesmo resultado".
Quando o técnico define seus planos para jogadas de defesa contra corta-luzes, Rondo não acha errado contestá-las. E em geral continua a contestar até que obtenha uma resposta convincente. "É a mentalidade dos armadores", diz Pierce. "Eles sempre se acham mais inteligentes que todo mundo. Às vezes ele é mais inteligente até do que ele mesmo".
Tudo isso parece familiar para Doug Bibby, que treinou Rondo na escola de segundo grau. Bibby diz que Rondo demorou quatro dias para dominar um complicado sistema de jogo que os veteranos demoraram quatro anos a aprender, quando entrou no time. Mas ele também entende que a fé de Rondo em que sabe melhor que ninguém o que precisa ser feito - mesmo que nem todo mundo concorde- pode se tornar uma espada de dois gumes. "Quando ele acha que está vendo alguma coisa", diz Bibby, que é primo de Mike Bibby, armador do Atlanta Hawks, "a situação pode se transformar em confronto".
Rondo nunca recua, nunca mostra fraqueza. Amber Rondo se esforçou para garantir que fosse assim. Divorciada, ela criou William, Rajon e sua filha Dymon sozinha, em um conjunto de habitação chamado College Court, perto do centro de Louisville, no qual tiroteios não são incomuns. Amber sempre escolhia o turno da noite na fábrica em que era operária, para que pudesse levar os filhos aos treinos, e os esperava dormindo nos fundos do furgão da família até a hora do jantar, antes de sair para o trabalho. Os três se tornaram atletas de sucesso no mundo estudantil, e todos se acostumaram a consultar Amber em seus jogos, antes mesmo de consultar os técnicos.
Quando os Rondo eram meninos, William jamais se queixou de levar Rajon, cinco anos mais novo, a todos os lugares que frequentava. Mas Amber não estava autorizada a pedir que os colegas de time passassem a bola ao menino ou deixassem de implicar com ele. "Não havia resmungos", diz William. "Ele aprendeu a jogar, e adquiriu essa mentalidade de que reclamar é para os fracos bem cedo". Se os colegas não lhe passavam a bola, ele a roubava dos adversários. Se bloqueavam seus arremessos, ele os driblava em velocidade. Se o derrubavam, nunca chorava. Jamais.
Rondo se tornou um mestre do autocontrole muito cedo, e hoje brinca sobre sua personalidade obsessiva e compulsiva, mas há algo de sério nisso. Quando criança, ele mal desembrulhava os presentes de Natal e já os estava guardando organizadamente. Hoje em dia, ele sabe se alguém se sentou no sofá de sua casa pela posição das almofadas. O ritual que segue em dias de partida consiste de cinco banhos e uma agenda precisa de preparativos que envolve escovar os dentes, colocar as meias, urinar e guardar um pequeno pote de Carmax dentro de uma meia.
Esse lado obsessivo transparece ainda mais, porém, quando ele comete um erro na quadra. "Ele não quer que as pessoas se aproximem dele, porque está processando o que fez de errado", diz Bibby. "Quando você consegue dar uma bronca, ele já compreendeu qual foi o problema". Mas a dificuldade é que, em jogos da NBA, às vezes já transcorreram três jogadas, enquanto isso, e Boston está em quadra com um jogador a menos. "Você está jogando zangado", Rivers disse a Rondo mais de uma vez. "Não fique fixado na zanga. Isso não só o atrapalha como atrapalha o time".
Antes do primeiro jogo da série contra o Magic, Rondo saiu de sua casa, em um subúrbio de Boston, no horário normal, às 17h, para o percurso de 35 minutos até o ginásio. Mas ao entrar com seu Bentley preto na estrada, encontrou um inesperado congestionamento. "No começo eu estava pensando que chegaria atrasado para fazer minha rotina", ele diz. "Depois, que eu perderia a preleção". Rivers estava na metade da preleção quando ele chegou. Com sua rotina completamente destruída, ele jogou um péssimo primeiro tempo, perdendo seus seis primeiros arremessos. O Magic fechou o período com vantagem de 18 pontos. Rivers deu-lhe um bronca tremenda no intervalo, e Rondo voltou à quadra e se saiu muito bem no segundo tempo. Mas o Celtics perdeu mesmo assim, e com a derrota no jogo perdeu o mando da série, e com isso talvez a série - tudo por causa do atraso de Rondo.
Rondo e Rivers não falam do assunto há meses, desde aquela conversa. Mas a crítica do técnico ainda incomoda. Rondo precisa de 15 segundos para encontrar uma resposta à pergunta sobre o que a crítica o fez sentir. "Nada bem", ele diz. O que ele prefere não admitir é que adora jogar pelo Celtics. Mas sua casa faz as declarações que ele evita. Localizada em Lincoln, no subúrbio de Boston, ela tem o número nove - o de sua camisa- e fica no final de uma estradinha de 400 metros, em uma região de colinas. Do lado de dentro, além de um painel com três fotos de sua filha Ryelle, é o Boston que domina a decoração. Um quadro mostrando a comemoração do título de 2008 pende da sala de jantar, ao lado de uma lareira. Ao lado fica a "sala do campeonato". Uma foto enorme do time diante do Coliseu de Roma pende sobre a lareira. A inscrição diz: "Ubuntu: uma pessoa só é uma pessoa por causa de outras pessoas". Há uma flâmula do título e um display de vidro para o seu anel de campeão. As fotos de Rondo - driblando Kobe Bryant, brincando com os colegas de time e contemplando uma revista- revelam todas o mesmo olhar frio, que ele ostenta agora, acomodado em uma das quatro cadeiras de couro posicionadas diante da lareira. "Se eu sair do Celtics, um dia eles perceberão o que perderam", diz. "Um time que me queira, é lá que desejo estar", ele afirma.
Na primeira partida de pré-temporada do Celtics em 2009, na pequena Hidalgo, Texas, perto da fronteira mexicana, Rondo se saiu muito mal, perdendo a bola quatro vezes, entre as quais em uma jogada em que sofria marcação dupla em sua própria quadra. Ele parecia ensimesmado, e nos tempos ficava sozinho na ponta do banco, enquanto os colegas conversavam com o técnico em sua ausência.
Mas Rivers elogia a maneira pela qual Rondo enfrentou as adversidades e, enquanto no passado ele poderia ter contemplado seus erros sozinho, hoje ele forma uma rodinha com Garnett, Pierce e Allen. Todos estão rindo, relaxados, brincados. Menos Rondo. Ele parece concentrado, atento, e a alegria de ser parte desse exclusivo clube se filtra em um raro sorriso, sem fantasmas à vista.
Mas os sentimentos dos colegas de equipe com relação a ele eram coisa diferente. As primeiras memórias esportivas de Rondo envolvem jogos improvisados de basquete em East Louisville, Kentucky, e a primeira motivação que teve era a decepção dos demais jogadores, adolescentes, que se viam forçados a escolher Rajon, então com seis anos, se quisessem ter seu irmão mais velho, William, no time. Mas isso tudo havia ficado no passado, ou ao menos era isso que Rondo acreditava. No entanto, em junho, quando ele chegou ao escritório de Doc Rivers, o técnico dos Celtics, para uma conversa, depois do fracasso da equipe em defender o título conquistado no ano anterior, Rondo se espantou ao ouvir do técnico a seguinte pergunta: "você acha que seus colegas de equipe gostam de jogar com você?"
Rondo não conseguia imaginar outra resposta que não "sim". Talvez seus colegas não gostassem dele como pessoa, já que se trata de uma personalidade estóica em meio a um grupo extrovertido, e de um garoto disposto a questionar quase tudo. Mas não gostar de jogar com ele? Rondo não estava escalado como titular de um time campeão pela segunda temporada consecutiva, e seu jogo, concentrado mais em servir os colegas com assistências do que em criar arremessos para ele mesmo, não era até motivo de críticas por ele finalizar pouco? E, na temporada passada, ele não havia conseguido vencer o duelo contra o melhor novato da temporada, Derrick Rose, do Chicago Bulls, em uma tensa série de playoff que chegou a sete jogos, e conquistado lugar entre os 10 melhores jogadores de defesa da NBA?
"Eu achei que gostavam", foi tudo que Rondo conseguiu responder.
Rivers não levou o assunto adiante. Sabia que a pergunta bastaria para levar Rondo a refletir. Porque pensar é o que ele gosta de fazer. É o segredo de seu sucesso, e talvez o motivo para a insinuação de Rivers. Ninguém é mais crítico com relação a Rondo do que o próprio Rondo. E quando o jovem armador começou a avaliar a temporada passada, ele se concentrou em alguns olhares de desaprovação, em alguns murmúrios insatisfeitos. Bastou isso para que retornassem os fantasmas do playoff. Rondo havia atribuído o resultado desfavorável da temporada à complacência de uma equipe que acabara de conquistar um título, ou a uma capitulação causada pela ausência de Kevin Garnett devido a uma lesão no joelho. Jamais havia imaginado que alguém viesse a vê-lo como problema. "Eu senti", disse, "como se alguém tivesse me apunhalado pelas costas".
Boatos sobre possíveis trocas, entre as temporadas, mencionavam que ele seria exilado para Memphis, no Tennessee, o que agravou sua preocupação. E mesmo que negasse os rumores, o diretor de basquete do time. Danny Ainge, deixou escapar em entrevista a uma rádio local que Rondo "precisava crescer". Depois, o Celtics iniciou sua pré-temporada sem oferecer a Rondo uma prorrogação mais longa de contrato, o que o levou a refletir sobre seu valor de mercado no ano que vem, quando uma cláusula em seu contrato permitirá que seja negociado.
Mas o engraçado é que, embora o valor de Rondo para o time pareça estar sendo subestimado, a expectativa é de que ele faça cada vez mais pela equipe. Antes da temporada passada, os céticos não conseguiam ver de que maneira o jovem armador, com apenas dois anos de experiência, seria capaz de manter satisfeitos os seus três colegas de equipe que já têm lugar garantido na Galeria da Fama do basquete. Agora, com a chegada de reforços também conhecidos pelo temperamento difícil ¿Rasheed Wallace e Marquis Daniel-, será preciso integrar os novos integrantes, bem como facilitar a volta de Garnett, recuperado de sua lesão. Seria um processo complicado mesmo que ele não tivesse de se preocupar em determinar quais de seus colegas o apoiam e quais deles prefeririam vê-lo fora do time. Perguntado a respeito, Rondo enrijece os dentes e a resposta surge depois de uma pausa: "não preciso ser o melhor amigo de todo mundo para conquistar um campeonato".
A trajetória de Rondo, em tese, é como a de um filme independente que se torna um grande sucesso de bilheteria. Selecionado em 21° lugar na temporada de 2006, ele pouco jogou em sua temporada de estreia, mas foi promovido ao time titular no ano seguinte e desafiou as dúvidas da torcida e da imprensa durante todo o campeonato, conduzindo a equipe ao seu 17° título na história da NBA. Na semana passada, ele acertou mais de 50% de seus arremessos e registrou cinco partidas com mais de 10 pontos, 10 assistências e 10 rebotes, entre as quais três durante os playoffs. A Dunkin¿ Donuts, uma cadeia de restaurantes muito bem representada na área de Boston, optou por Rondo, e não Garnett, Paul Pierce ou Ray Allen, como garoto-propaganda. O mesmo vale para a Red Bull. Seus fãs no Facebook ¿que beiram os 60 mil- representam total quase duas vezes maior que o Pierce, considerado o melhor jogador das finais de 2008 e, como Rondo, um atleta que até agora só defendeu os Celtics.
Mas embora ele seja um sucesso com aqueles que o observam de longe, de perto Rondo enfrenta dificuldades para estabelecer conexões. Em Kentucky, o boato era o de que ele não se sentia bem com o sistema de controle de bola estabelecido pelo técnico Tubby Smith; quando ele se profissionalizou, depois de seu segundo ano de universidade, a saída foi aprovada pelo técnico. Nas férias deste ano, quando ele preferiu não treinar com a seleção de basquete dos Estados Unidos, as pessoas disseram que isso havia acontecido porque ele estava ofendido por ter sido convidado tardiamente. (Rondo diz que havia assumido o compromisso de servir como padrinho no casamento de seu melhor amigo e colega de time, Kendrick Perkins.) E só agora ele decidiu prometer que não mais se aqueceria com os tênis desamarrados, alegando não estar ciente de que os técnicos viam essa atitude como sinal de desrespeito. Quaisquer que sejam as verdades sobre tudo isso, o inconformismo de Rondo pode ser interpretado como arrogância, como desinteresse ou como ambas as coisas. "Ele permite que as pessoas interpretem como preferirem", diz o irmão, William. "Ele sorri, ou acena, mas prefere ficar quieto".
Isso não era problema para Rivers, no dia em que resolveu ter uma conversa com o seu armador principal. "Eu não marquei uma reunião com ele para conversar", diz o técnico. "Mas era preciso que ele fosse informado de algumas coisas". Coisas como o seu atraso para a primeira partida contra o Orlando Magic, na semifinal da conferência leste, sua postura negligente e sua perda de concentração, suas reclamações em hora errada -ou falta de reclamações quando deveria fazê-lo. "Não se trata de questões que sejam específicas quanto a Rondo, mas sim de coisas que afetam todos os jovens jogadores em busca de um contrato e de acordos milionários de publicidade", disse Rivers. "O que ele não pode esquecer é que o basquete vem em primeiro lugar".
Mas se essa era a preocupação principal, não parece haver motivo para que persista: nas férias, Rondo fez três visitas ao Laboratório de Arremessos de Mark Price, perto de Atlanta, e em alguns dias passou por sessões duplas a fim de remediar o único ponto fraco de seu arsenal, os jumpers. Como bonificação, o desdém pelo treinamento com pesos ¿ele temia que ganhar musculatura excessiva o fizesse perder velocidade- terminou abandonado depois que ele teve de enfrentar a marcação do musculoso Dwight Howard na série contra o Magic. Ele também prometeu que deixaria de cometer faltas tolas em tentativas de roubo de bola por trás. O Celtics certamente teria gostado de que ele corrigisse essas deficiências já desde o primeiro dia em que chegou à cidade. "Quando alguém diz que dois mais dois são quatro, ele quer saber o motivo", diz William, que vive com Rajon. "Na quadra é a mesma coisa. Ele diz que só porque o time faz uma jogada de determinada maneira e ela funciona, não quer dizer que não seja possível realizá-la de maneira diferente e obter o mesmo resultado".
Quando o técnico define seus planos para jogadas de defesa contra corta-luzes, Rondo não acha errado contestá-las. E em geral continua a contestar até que obtenha uma resposta convincente. "É a mentalidade dos armadores", diz Pierce. "Eles sempre se acham mais inteligentes que todo mundo. Às vezes ele é mais inteligente até do que ele mesmo".
Tudo isso parece familiar para Doug Bibby, que treinou Rondo na escola de segundo grau. Bibby diz que Rondo demorou quatro dias para dominar um complicado sistema de jogo que os veteranos demoraram quatro anos a aprender, quando entrou no time. Mas ele também entende que a fé de Rondo em que sabe melhor que ninguém o que precisa ser feito - mesmo que nem todo mundo concorde- pode se tornar uma espada de dois gumes. "Quando ele acha que está vendo alguma coisa", diz Bibby, que é primo de Mike Bibby, armador do Atlanta Hawks, "a situação pode se transformar em confronto".
Rondo nunca recua, nunca mostra fraqueza. Amber Rondo se esforçou para garantir que fosse assim. Divorciada, ela criou William, Rajon e sua filha Dymon sozinha, em um conjunto de habitação chamado College Court, perto do centro de Louisville, no qual tiroteios não são incomuns. Amber sempre escolhia o turno da noite na fábrica em que era operária, para que pudesse levar os filhos aos treinos, e os esperava dormindo nos fundos do furgão da família até a hora do jantar, antes de sair para o trabalho. Os três se tornaram atletas de sucesso no mundo estudantil, e todos se acostumaram a consultar Amber em seus jogos, antes mesmo de consultar os técnicos.
Quando os Rondo eram meninos, William jamais se queixou de levar Rajon, cinco anos mais novo, a todos os lugares que frequentava. Mas Amber não estava autorizada a pedir que os colegas de time passassem a bola ao menino ou deixassem de implicar com ele. "Não havia resmungos", diz William. "Ele aprendeu a jogar, e adquiriu essa mentalidade de que reclamar é para os fracos bem cedo". Se os colegas não lhe passavam a bola, ele a roubava dos adversários. Se bloqueavam seus arremessos, ele os driblava em velocidade. Se o derrubavam, nunca chorava. Jamais.
Rondo se tornou um mestre do autocontrole muito cedo, e hoje brinca sobre sua personalidade obsessiva e compulsiva, mas há algo de sério nisso. Quando criança, ele mal desembrulhava os presentes de Natal e já os estava guardando organizadamente. Hoje em dia, ele sabe se alguém se sentou no sofá de sua casa pela posição das almofadas. O ritual que segue em dias de partida consiste de cinco banhos e uma agenda precisa de preparativos que envolve escovar os dentes, colocar as meias, urinar e guardar um pequeno pote de Carmax dentro de uma meia.
Esse lado obsessivo transparece ainda mais, porém, quando ele comete um erro na quadra. "Ele não quer que as pessoas se aproximem dele, porque está processando o que fez de errado", diz Bibby. "Quando você consegue dar uma bronca, ele já compreendeu qual foi o problema". Mas a dificuldade é que, em jogos da NBA, às vezes já transcorreram três jogadas, enquanto isso, e Boston está em quadra com um jogador a menos. "Você está jogando zangado", Rivers disse a Rondo mais de uma vez. "Não fique fixado na zanga. Isso não só o atrapalha como atrapalha o time".
Antes do primeiro jogo da série contra o Magic, Rondo saiu de sua casa, em um subúrbio de Boston, no horário normal, às 17h, para o percurso de 35 minutos até o ginásio. Mas ao entrar com seu Bentley preto na estrada, encontrou um inesperado congestionamento. "No começo eu estava pensando que chegaria atrasado para fazer minha rotina", ele diz. "Depois, que eu perderia a preleção". Rivers estava na metade da preleção quando ele chegou. Com sua rotina completamente destruída, ele jogou um péssimo primeiro tempo, perdendo seus seis primeiros arremessos. O Magic fechou o período com vantagem de 18 pontos. Rivers deu-lhe um bronca tremenda no intervalo, e Rondo voltou à quadra e se saiu muito bem no segundo tempo. Mas o Celtics perdeu mesmo assim, e com a derrota no jogo perdeu o mando da série, e com isso talvez a série - tudo por causa do atraso de Rondo.
Rondo e Rivers não falam do assunto há meses, desde aquela conversa. Mas a crítica do técnico ainda incomoda. Rondo precisa de 15 segundos para encontrar uma resposta à pergunta sobre o que a crítica o fez sentir. "Nada bem", ele diz. O que ele prefere não admitir é que adora jogar pelo Celtics. Mas sua casa faz as declarações que ele evita. Localizada em Lincoln, no subúrbio de Boston, ela tem o número nove - o de sua camisa- e fica no final de uma estradinha de 400 metros, em uma região de colinas. Do lado de dentro, além de um painel com três fotos de sua filha Ryelle, é o Boston que domina a decoração. Um quadro mostrando a comemoração do título de 2008 pende da sala de jantar, ao lado de uma lareira. Ao lado fica a "sala do campeonato". Uma foto enorme do time diante do Coliseu de Roma pende sobre a lareira. A inscrição diz: "Ubuntu: uma pessoa só é uma pessoa por causa de outras pessoas". Há uma flâmula do título e um display de vidro para o seu anel de campeão. As fotos de Rondo - driblando Kobe Bryant, brincando com os colegas de time e contemplando uma revista- revelam todas o mesmo olhar frio, que ele ostenta agora, acomodado em uma das quatro cadeiras de couro posicionadas diante da lareira. "Se eu sair do Celtics, um dia eles perceberão o que perderam", diz. "Um time que me queira, é lá que desejo estar", ele afirma.
Na primeira partida de pré-temporada do Celtics em 2009, na pequena Hidalgo, Texas, perto da fronteira mexicana, Rondo se saiu muito mal, perdendo a bola quatro vezes, entre as quais em uma jogada em que sofria marcação dupla em sua própria quadra. Ele parecia ensimesmado, e nos tempos ficava sozinho na ponta do banco, enquanto os colegas conversavam com o técnico em sua ausência.
Mas Rivers elogia a maneira pela qual Rondo enfrentou as adversidades e, enquanto no passado ele poderia ter contemplado seus erros sozinho, hoje ele forma uma rodinha com Garnett, Pierce e Allen. Todos estão rindo, relaxados, brincados. Menos Rondo. Ele parece concentrado, atento, e a alegria de ser parte desse exclusivo clube se filtra em um raro sorriso, sem fantasmas à vista.